segunda-feira, 21 de maio de 2012

Semana Santa em Sevilha


Queridas,
eu de novo... não falei que tinha muito para escrever?
Eu estava muito curiosa para conhecer a Semana Santa de Sevilha. Muita gente viajou (os meninos de Ouro Preto foram para Marrocos e pro deserto do Saara), mas eu resolvi ficar para conhecer como é a festa. Todos os sites que tratam de Sevilha falam da Semana Santa que é uma das maiores festas da cidade.
Confesso que achei um pouco estranha e cansativa. A festa consiste em 61 procissões (eu contei no folheto) de domingo de ramos até sábado. São umas 7 por dia e algumas já saem de madrugada. Na sexta, a primeira sai à meia-noite. Cada uma sai de uma Igreja específica - que fica com as portas fechadas, com todo mundo do lado de fora na maior expectativa - até que a procissão vai pela cidade, chega na Catedral e volta para a Igreja de origem. Quando a procissão está próximo à Catedral, o povo não pode mais ver, porque só a procissão propriamente dita é que pode passar. Famílias tradicionais da cidade têm cadeiras nas ruas próximas à Catedral onde podem ver confortavelmente a passagem da procissão. Por mais que tenham turistas na cidade, não há lugar para eles neste espaço.
Para participar da procissão, é preciso fazer parte de uma irmandade e, para isso, tem que ser recomendado por um membro mais antigo, se portar bem, e ser considerada uma pessoa religiosa. As irmandades antigamente formavam-se por corporações de ofícios: padeiros, açougueiros, etc. Em geral, todos na procissão vestem roupas bem específicas. A maioria são nazarenos. Eles se vestem com túnicas e um negócio pontudo na cabeça – que parece com a Ku Klux Klan. Vão pelas ruas com grandes velas. Tem também os penitentes que vão com uma cruz na procissão. Todos estes tem o rosto coberto – e a explicação que me deram é que não se deve ficar apregoando que estão fazendo penitência. Tem também algumas crianças que distribuem santinhos ou doces para outras crianças. Ah, vi algumas vestidas de nazareno também. E tem uma banda que toca músicas bem tristes, além das saetas que são cantos chorosos que alguma pessoa tira de uma sacada (sem microfone).
Mas o mais importante são os andores são riquíssimos, belíssimos, enfeitadíssimos, feitos de prata ou madeira muito trabalhada, cheios de flores lindas e velas. Algumas procissões têm mais de um e eles são levados pelos costaleros que vão debaixo do andor sem enxergar nada, cada um carregando cerca de 80 quilos. Como eles não veem nada, fazem um longo treinamento tanto para suportar o trabalho (tem procissão que dura 12-14 horas dependendo de onde saem) quanto para atuarem em conjunto. Eles não andam somente, fazem passos específicos dependendo se o andor é de Nossa Senhora ou de Jesus, e tem que aprender a ir, voltar, abaixar, levantar e fazer algumas curvas muito estreitas sem enxergarem nada. Para isso, tem um capataz que grita as ordens e eles obedecem. Antes da Semana Santa, eles andam pela cidade como se estivessem dentro de uma caixa treinando. Eu tinha visto uma grande caixa cheia de gente dentro (eu via os pés) andando pela rua, achei que tinha a ver com o Carnaval (estava na véspera), e agora descobri que eram os ensaios para a Semana Santa. Fui a uma exposição de pálios (que cobrem os andores e são maravilhosamente bordados) e tirei umas fotos e vou mostrar para vocês. Falando em fotos, vou fazer uma pequena digressão. Minha amiga Adriana me disse que estava fazendo um curso de fotografias. Pois eu tive a capacidade de dizer a ela que ela estava jogando tempo e dinheiro fora porque devia fazer um curso do Photoshop, já que a gente pode tirar uma foto qualquer e melhorar no Photoshop. (Que a Marcy nunca leia o que eu escrevi agora) Santa Ignorância. Agora me dou conta disso. Eu tiro muitas fotos de tudo para mostrar para vocês, mas fico muito decepcionada. Elas não retratam o que eu estou vendo. Ficam tão sem graça... E tem cada detalhe lindo que na foto fica imperceptível. (Dri, perdoe-me!). Como as fotos não mostram o que eu vejo e eu não sei usar o tal do Photoshop, decidi que vou pegar umas fotos na internet para mandar para vocês terem ideia do que eu falo.
Outros detalhes interessantes:
Vem gente do mundo inteiro ver a Semana Santa e os hotéis ficam cheios de turistas. Outras cidades de Espanha também fazem esta festa, mas não com a riqueza e a tradição daqui. Isso significa que é muita, muita gente na rua. Sem contar que as procissões são enormes. São muitos participantes também. Hoje uma pessoa me contou que, para ver a chegada de uma procissão, chegou com duas horas de antecedência. Isso depende também de qual procissão é, porque algumas são mais concorridas que outras.
É tudo muito bonito e bem cuidado. Se fosse no Brasil (pelo menos no Brasil que eu conheço) ia ter um Nazareno de roupa amarrotada, outro com a túnica “pegando frango”, outro de cor diferente. Mas aqui não é assim. É tudo exatamente igual, da mesma cor, mesmo tamanho, mesmo bordado – se há muita diferença eu não consegui ver. Tudo impecável. As crianças vestem cada roupa linda. Segundo a María del Mar (depois eu falo dela),a festa tem características de barroco. Eu não sei bem o que é isso, barroco para mim é igual Ouro Preto e rococó. Ouro Preto não tem nada a ver, mas rococó é o que não falta... Para ser sincera, lembra um pouco o carnaval do Rio de Janeiro. As pessoas se prepararam o ano todo para a festa, as roupas são trabalhadas com esmero e os andores parecem um pouco os carros alegóricos de tão enfeitados.
Não há uma ordem nas procissões (às vezes passa Jesus crucificado e logo depois, um andor no qual ele estava sendo condenado) e estranhei o fato de que tem muito mais Nossas Senhoras que Jesus. Nossa Senhora vai sempre maravilhosamente vestida, com bordados, jóias, rendas, mesmo que esteja triste pela morte do filho. O curioso é que ela sempre está vestida como uma rainha, já Jesus vai com as roupas simples que a gente conhece mesmo. Vai ver que é até por isso que tem mais Nossa Senhora. Jesus não estaria com trajes muito adequados para uma festa tão chique. Uma pessoa me contou que irmandades mais ricas tendem a se vestir mais pobremente e com uma faixa na túnica (que eu não vi aqui, mas vi na internet que o Antônio Banderas vestiu em Málaga – ele sempre participa das procissões de lá, faz sermão e tudo). As mais ricas também são mais silenciosas. Tem até uma que é do Silêncio na sexta-feira. É muito legal, a multidão na rua toda em silêncio – só se ouve alguns sussurros. Já as mais pobres são as que têm os adornos mais ricos e fazem mais música e barulho. Pois se já se é pobre, pra que ser triste também, né?
As procissões tem hora para sair porque as ruas de acesso à catedral são estreitas e passa uma de cada vez e lembrem-se que elas são enormes, então é mais ou menos cronometrado. Sai uma, entra outra. Só que na Semana Santa costuma chover e, neste caso, não se pode sair com o andor que pode estragar com a chuva. Se chover, meia hora que seja, a procissão já perdeu o horário. Se a procissão tá na rua é o caos, porque eles tem que procurar abrigo imediatamente para o andor. Então, a previsão do tempo é algo muito importante e dada com frequência na TV. Se a procissão não sai, perdeu a vez e agora só vai sair no ano que vem e é uma grande decepção com bastante choro dos participantes.
Na quinta-feira santa, algumas mulheres vestem luto – de fato eu achei um pouco sexy demais para umas viúvas – e põem um vestido justo preto, uma meia calça (estava frio) e um véu (que se chama mantilha) enorme (e lindo) na cabeça preso por um peineta. As que eu vi tinha sempre um terço (também lindo) na mão. A tradição manda que elas visitem sete sacrários, mas nem todas fazem isso. E não devem estar desacompanhadas. Tem que estar com um homem. Um homem pode levar duas mulheres. Aqui também tá faltando homem, acreditem! E eles vão sempre de ternos e muito bem vestidos. Mas acho que, se for mais de uma mulher podem ir também. Vi alguns grupos com 2 ou 3. São muitas mulheres que fazem isso, jovens e senhoras. Eu queria tirar fotos, mas fiquei com vergonha, tirei de uma pelas costas, vou tentar encontrar na internet para vocês verem. É bem interessante. Não é uma promessa. É uma tradição e as famílias têm estas mantilhas como verdadeiras joias porque são muito caras.
Ah, e as crianças aqui brincam de Semana Santa. Um dia chequei no conjunto de prédios onde eu moro e vi umas cinco crianças com vela e um pequeno andor. Achei muito engraçado. Aí descobri que eles estavam brincando... mais ou menos... porque eles estavam pedindo dinheiro... não sei exatamente para que, mas resolvi por 1 euro na sacolinha deles. Lembrei de quando eu era criança e coroava minhas bonecas. Pedi a eles par tirar uma foto. Vou por para vocês verem.
Aqui não tem aquela loucura por ovos de Páscoa. Até existem. Devia ter uns dez num supermercado grande lá perto de casa. Vi também uns ovinhos de galinha (com a galinha) feitos de chocolate. Custei a associar com a Páscoa. Vi na TV que, em geral, as crianças comem um bolo coberto por chocolate. O bom é que isso me livrou de umas calorias a mais... Por falar nisso, no próximo e-mail vou falar um pouco da comida e dos costumes daqui.
Enfim, esta foi a Semana Santa. Muito bonita, mas não acho que viria aqui só para ver isso não. Todo dia procissão... E, para dizer a verdade, me pareceu que a festa tenha muito mais um caráter cultural que religioso. Mas foi bom ter visto. Agora tenho mais história para contar. Vocês já imaginaram o quanto eu vou estar chata quando voltar? Então, antes que vocês tenham que ouvir isso tudo de novo, é só me falar: Rita, você já falou tudo por e-mail, não precisa repetir mais... Bem, tão terminando as histórias. Não desanimem. Agora só falta um e-mail.
Beijos.

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