Queridas amigas,
Cá estou eu de novo contando as aventuras e desventuras
mundo afora...
Fiquei muito orgulhosa da minha
desenvoltura na Alemanha. Consegui pegar ônibus, trem, barco, avião, tudo que
era preciso para fazer o que eu planejava. Berlim é uma cidade legal. Achei
tudo bem diferente do que imaginei. Achava que todo mundo era enorme (isso não
é verdade), bravíssimo (são gente boa!) e loiro (falso também). Aurea queria
saber se era tudo muito limpo. Não. Não era. Não chega a ser sujo, mas basta um
papelzinho no chão da estação de metrô para eu não poder mais dizer que tá
limpo. Disseram que Munique é limpíssimo, mas eu não conheci. Mas as pichações dão
à cidade um aspecto de sujeira (certamente há quem goste de pichações, mas é
como eu vejo). Berlim tem gente do mundo inteiro: japonês, africanos, indianos,
turcos, pessoas do Leste Europeu e pode não ser um exemplo claro do que é
tipicamente alemão.
Vou comentar uma coisa –
confessando minha mais absoluta ingenuidade – que me surpreendeu muito aqui. Pessoas
pedindo esmolas. Juro que eu achava que isso não acontecia nos países ricos.
Mas tem. Não muitos, mas eles me chamam a atenção. Eu sempre ouvi dizer que não
havia pobreza, miséria, fome, desemprego, que todos tinham suas necessidades
básicas satisfeitas. Ou será que eu inventei isso? Sei lá. Não vi crianças
(ainda bem!) mas adultos pedindo. Alguns jovens de vinte e poucos anos.
Bonitos. Um casal de celular na entrada do metrô. Celular mais moderno que o
meu. A Gláucia tentou me explicar muitas vezes que podem ser pessoas com
problemas mentais, jovens que abandonam a família, refugiados, estrangeiros que
estão em processo de legalização e não tem direito ainda aos benefícios
sociais... Eu ouvi, entendi, mas não compreendo.
Bem, visitei o que restou do muro
(gostei mais da parte que todo mundo coloca o chiclete...), o monumento aos
judeus, a catedral, uma sinagoga que hoje é museu e não lembro mais o que. Fala-se muito na guerra que marcou muito a
cidade até hoje. Não quis visitar os campos de concentração. Mas passei por uma
praça onde foram queimados milhares de livros da biblioteca durante o nazismo.
Na praça havia uma exposição de livros com sofás e redes para as pessoas lerem.
Lá tem uma placa com uma frase do século XIX atribuída ao poeta alemão Heinrich
Heine que diz “Onde se queimam livros, também se queimam pessoas” (Eu acho que
é isso. Está escrito em alemão e leram para mim). É uma cidade plana cheia de
bicicletas. Tem até um carrinho para colocar bebês na bicicleta, mas levam
cachorro, compras, qualquer coisa. Tem muitos ônibus, trem, metrô e achei fácil
andar na cidade. O transporte público é excelente. Tudo prático, rápido e
simples. Sem falar uma palavra de alemão (ah, aprendi a falar “danke”=
“obrigado” e “guten morgen”=“bom dia”), comecei a entender as sinalizações do
trem no segundo dia. Fui e voltei pro aeroporto de trem. Não precisei de táxi.
Uma das coisas que tem me
surpreendido é o tanto de área verde nas cidades. Como é bonito. Cheio de
parques e jardins e heras subindo pelos edifícios... Muito, muito verde.
Ah, fui num Flohmarkt
(Mercado das pulgas) que tinha de tudo. Muito legal. Sorte minha que o Brasil é
longe, a grana é curta e a mala é pequena. Acho que sempre tem aos domingos.
Mas o melhor de
tudo foi uma cidade perto de Berlim chamada Postdam. Era uma cidade de descanso
para o rei. Eles contaram que o rei queria que todo mundo tivesse casa bonita.
Então construía fachadas lindas que escondiam as casas pobres. É uma cidade com
vários palácios e muitos jardins lindos. Visitei o Sanssouci (que significa “sem
preocupações”) construído pelo Frederico II da Prússia. É pequeno (acho que tem
3 quartos) e tem um lindo jardim. Não entrei porque era segunda-feira e estava
fechado. Fui também a um lugar onde aconteceu a Conferência de Postdam em 1945,
quando, ao final da guerra, decidiram dividir a Alemanha ao meio. Visitei
também o Palácio Novo, que é fabuloso, indescritível e fantástico. Um dos
salões decorado com conchas nunca vou esquecer. Atualmente parte do Palácio é
sede da Universidade de Postdam.
No último dia, fui
aos museus. Impressionante. Eles tem desde as primeiros resquícios do ser
humano na face da Terra, moedas, utensílios, coisas do antigo Egito, da
Babilônia (uma porta imensa), da Grécia Antiga (parte do Altar de Pérgamo e do
mercado de Mileto) entre outras produções histórias e culturais muito valiosas.
É triste pensar o quanto estas obras devem ter sido avariadas com as viagens e
as mudanças. Mas eles justificam dizendo que salvaram as obras de arte que
estavam sendo destruídas nos lugares de origem. Disseram que os gregos quebravam
e arrancavam partes dos monumentos e usavam o material. Cada um com sua
história e sua verdade...

A próxima parada
era a casa da minha amiga Gláucia e do seu marido Volker em Bonn. Uma cidade
linda, encantadora em que toda casa é um pouco palácio, inclusive a dos meus
amigos que é centenária e linda. Eles moram perto do Jardim Botânico num lugar
encantador. As casas não tem muros, nem grades, nem cercas elétricas, nem
porteiros... só jardins. Não é o paraíso?
A cidade tem verde
por todos os lados, jardins e heras e as pessoas andam de bicicleta – é tudo
plano! Não visitei a casa de Beethoven (que nasceu em Bonn), nem umas
exposições chiquérrimas que a Gláucia tinha separado para eu ver.
Fui a Colônia
naquela catedral maravilhosa. O Volker me contou que eles começaram a
construção da igreja no século XII e duzentos anos depois já não sabiam mais
qual era o projeto inicial e ela foi interrompida até ser retomada no século
XIX. Impressionante a altura, os vitrais, os mosaicos do chão, tudo lindo.
Perto da Catedral
tem ainda alguns resquícios do período romano e um museu com um mosaico romano
fabuloso.
No outro dia, fiz
um passeio de barco pelo Rio Reno, desci em Kӧnigswinter
e fui a uma ruína de um palácio e a um palácio chamado Schloss Drachenburg que
era uma casa fantástica e agora é um museu. Só tem casas maravilhosas ao longo
do Reno que foi (e é) importante política e economicamente. Como ele é
navegável facilitava e facilita o transporte de pessoas e cargas.
No fim de semana,
fui a Unkel, Bad Honnef, Altenahr, Ahrweiler, Remagen (onde tem os resquícios
da última ponte – que não foi destruída pelos alemães e por onde os aliados
entraram no outro lado da Alemanha) e em Maria Laach See (um mosteiro que tem
uma produção orgânica de flores, verduras e legumes vendida pelos monges até
hoje) e um lago numa antiga cratera vulcânica. Estas cidades lindas (numa tinha
até um festival de música delicioso e em outra uma feira de tecidos) me foram
apresentadas por Gláucia e Volker no fim de semana.
Ainda falta contar
uma coisa interessante. Na noite de 30 de maio, os homens (e agora modernamente
as mulheres também) para declarar seu amor, colocam uma árvore toda enfeitada
na porta da casa onde mora a pessoa pela qual estão apaixonados(as). Para não
ter confusão, põem um coração vermelho com o nome da pessoa para a qual estão
se declarando. Resta à(ao) agraciada(o) descobrir o(a) autor(a) da declaração e
dizer se aceita ou não. E tem é gente apaixonada na cidade. Tinha árvore
enfeitada em tudo quanto é canto.
Segundo o Volker,
algum tempo depois das declarações recebidas e aceitas, vem outra tradição:
enfeitar a porta da casa anunciando a chegada de um bebê.
Certamente, faltou
muito para conhecer da Alemanha, que é muito maior do que pude perceber. Esta
viagem foi terapêutica para mim: me descobri mais ousada, corajosa e capaz do
que imaginava. Fiquei também impressionada com o quanto de beleza o ser humano
é capaz de produzir. Ao mesmo tempo, só pude contemplar o que sobrou de inúmeros
conflitos e guerras que destruíram boa
parte deste patrimônio – sem falar nas vidas que se perderam. O que seria do
mundo se não tivessem os muros? Se as pessoas colocassem nas ruas a celebração
da vida e do amor? Vou parar por aqui. A ousadia anda chegando a ponto de
pensar que o mundo pode ser diferente do que é.
Beijos a todas,
Ritinha.














