segunda-feira, 21 de maio de 2012

Cultura sevilhana


Gente, agora é o último, eu prometo. Pelo menos até a minha próxima necessidade de fugir do pós-doc...
Este tema foi motivado por uma conversa com Sheilla que me disse que, quando ela veio a Barcelona (por 1 mês, eu acho), achou muito fácil falar e compreender as pessoas e que, quando voltou ao Brasil, ainda deu um curso na PUC de cultura espanhola. Isso mexeu com meu orgulho. Até agora eu não entendo bem o que falam comigo, invento conjugações de verbos e pago todos os micos que um estrangeiro tem (ou não) direito. Fiquei roxa de inveja e só por isso vou escrever um e-mail sobre costumes espanhóis. Viu Sheilloca, agora estamos quites...
Vou começar pelas comidas. De fato, eu não estou ainda muito bem adaptada aos costumes daqui. As pessoas tomam dois cafés da manhã, um ao acordar e um por volta de 11 horas da manhã e é comum sair para tomar o café na rua. Bem, pelo menos tem um negócio que eu gostei muito que é o típico café da manhã da Andaluzia (o estado em que está Sevilha). É um pão (o pão aqui é bem duro), torrado ou não, em que se coloca azeite. Também se pode acrescentar açúcar (ainda não provei azeite com açúcar, deve ser estranho) ou sal, tomate (fatiado ou triturado) e jamón ibérico. Este último é meio nojento, mas é gostoso. São pernis curtidos no sal por mais ou menos dois anos. Depois se lava, se pendura e vai se tirando fatias. Nos restaurantes, eles ficam expostos. Vou mostrar as fotos.
O almoço é servido entre 2 e 4 da tarde e tem muitas lojas, supermercados, farmácias que fecham entre 14 e 17 horas (para a siesta). Acho que o povo toma café na rua, mas, em geral, almoça em casa. Depois as lojas abrem até mais ou menos as 21 ou 22 horas. Parece que as pessoas jantam nesta hora, mas isso não sei bem. Eu já tô indo dormir neste horário.

Não acho a comida daqui gostosa. Tem pratos que tiram da geladeira e te servem. Hoje mesmo meu almoço tinha uma salada com batata cozida muito fria. Alguns pratos até eu gosto, mas a maioria não. Nos restaurantes se serve dois pratos salgados e uma sobremesa. Em geral, pelo menos num dos pratos tem batata, quase sempre, frita. E sempre se serve pão nas refeições.
Quanto à paella... eu achava que era sempre feita de frutos do mar e, de fato, a maioria é assim, mas quando fui ao País Basco me disseram que pode ser feita com frango ou outras carnes somente. O Antonio Banderas fez uma no programa da Ana Maria Braga que levava frango, carne e peixe... parecia uma delícia... Mas não achei destas.
Tenho assistido a uns programas de culinária aqui, tem um engraçadíssimo. É uma chef que ensina uma pessoa – no estúdio de gravação – a fazer uma refeição. Depois disso, a pessoa volta para casa e faz um jantar para quem quiser convidar. Tudo parece simples e fácil. As pessoas observam e não ficam com nenhuma dúvida... até chegar ao supermercado para comprar os produtos. Aí começam os problemas. Teve um cara que fez uma verdura que no programa estava crocante ficar toda molenga – acho que ele fritou em gordura fria. Mas o melhor foi ele tentando fazer clara em neve com um mixer de triturar. Ele gastou mais de uma dúzia de ovos e achava que os ovos estavam com algum tipo de defeito. Por fim, terminou a receita sem a clara em neve. Eu gosto dessas coisas porque me lembram algumas pessoas que conheço.
Um dia a Cida me disse que eu não ia poder comer na rua – que é muito caro – e eu ia ter que aprender a cozinhar. Fiquei apavorada. Mas ainda não foi preciso. Eu compro comida semi-pronta (até arroz tem) e ponho no microondas 3 minutos. Até salada lavada e picada eu encontro. Que salvação! Mas agora estou começando a ficar preocupada. Estou fazendo intercâmbio linguístico (não é o que vocês estão pensando...). Vou explicar: trata-se de encontrar uma pessoa que fala uma língua que você queira aprender e que queira aprender a sua. Então isto é o intercâmbio linguístico (pelo menos o que eu tenho feito até agora). E conheci a María del Mar que é professora de inglês na Universidade de Sevilha e fala espanhol (é nativa), inglês (morou vários anos nos Estados Unidos), italiano, francês, alemão e agora português. Como tem gente chique neste mundo, né? Ela fala português de Portugal, tem um grupo que estuda português, me apresentou a eles, me levou para almoçar na casa dela e, de vez em quando, a gente sai para comer umas tapas e conversar. Eu fiquei pensando em fazer uma comida brasileira para ela e grupo que estuda português. Mas estou com medo de arruinar o intercâmbio e a amizade. Ainda não sei que produtos brasileiros há aqui. É que eu só vou na área de congelados e semi-prontos do supermercado. Achei um pó para fazer pão de queijo e pensei em talvez começar por aí. Vamos ver o que faço. Mamãe, vou precisar muito da sua ajuda... E como...
As tapas são uma tradição daqui. Antigamente, parece que eram gratuitas. Eram aperitivos que se colocavam nos bares para os fregueses, mas agora são pagas. Eu não gosto muito. Acho sem graça. A melhor que comi me custou um mico danado. Estava eu com a Fatinha (professora da Economia Doméstica), o irmão dela e a esposa num bar e o garçom sugeriu uma carne muito boa. Eu não entendi muito bem, mas tinha música, massagem, fiquei animada. Pedimos a tapa. A carne era realmente ótima, mas a melhor parte, que era a massagem, não chegava nunca. Aí resolvi perguntar quando viria... Gente, a música e a massagem eram para o boi, não para mim. Isso que dá entender castelhano pelas metades.
Os doces aqui são maravilhosos. Estou fugindo deles como diabo da cruz, mas são muita tentação. Vou colocar umas fotos para vocês.
Quanto ás bebidas... Essa parte tá bem capenga. Dizem que os vinhos aqui são ótimos, mas ainda não consegui gostar. E de dia, se bebe vinho misturado a um refrigerante tipo Sprite com gelo (é que aqui é muito quente). Ainda quero provar suco de tomate que vi as pessoas tomando com sal, mas ainda não o fiz. E há também o gaspacho que ainda não tomei porque não chegou o verão.
Não posso falar muito de comida, porque estou engordando... E aí corre o risco de eu ter que provar muita coisa para comentar o que achei. Então vou parando por aqui.
Para concluir, vou contar um pouco como as pessoas se vestem. É mais ou menos como no Brasil, mas em geral mais caprichado. Com salto, maquiagem, meia-calça, botas, cachecóis... Eu até tento imitar – comprei 3 pares de botas (é que eu tava precisando, sabe?), umas meias, uns cachecóis, mas acho que ainda não tô chique. Um dia, acordei animadíssima para me maquiar, caprichei no visual e fui para uma reunião com minha orientadora. Sabe qual foi a primeira coisa que ela me falou? Que eu estava com uma cara de quem tinha dormido muito mal. Nossa. Será que tava ruim assim?
As crianças são sempre muito bem vestidas. Ficam lindas. Eu vejo muitos gêmeos e é muito comum que estejam vestidos iguais. Mesmo irmãos diferentes costumam vestir as mesmas roupas. Outro dia, vi um casal com dois filhos. A menina se vestia igual à mãe e o menino igual ao pai. Vocês podem achar isso brega, mas eu achei lindo. Até porque, quando as pessoas se dão este trabalho todo, não vão por qualquer roupa.
Ah, lembra que eu contei das mulheres vestidas de preto com véu e peineta na Semana Santa? Pois é, me contaram que nos casamentos, a mãe da noiva costuma usar véu e peineta. Em casamentos mais sofisticados, como o da Infanta Elena que se casou na Catedral de Sevilha, o traje das mulheres incluía peineta e o véu não tenho certeza. Eu tentei achar fotos do casamento, só consegui uma com o que eu queria.  É que agora só se fala no divórcio dela (êta imprensa que gosta de coisa ruim). Eu achava que a mãe da noiva não ia usar véu preto (me disseram que era colorido), mas na foto que encontrei, a Rainha Sofia e mais uma mulher (não sei quem) estão com véu preto. Vou por para vocês verem. Antigamente, as peinetas eram feitas de casco de tartaruga e ainda é possível achar, mas são muito caras. São verdadeiras jóias. Eu achei umas fotos num site sobre mulheres com véus coloridos em festas e vou colocar para vocês verem. Na Feira de Sevilha acho que as mulheres costumam usar véus com peinetas (depois conto com certeza) e nas touradas elas põem véu e peineta brancas.
Ah, mais um detalhe. Tenho quase certeza que a maioria das pessoas aqui não toma banho todo dia. Ainda não fiz uma investigação mais profunda – e tô com vergonha de perguntar. Mas é o que parece... Já pensou se eu resolvo adotar este traço cultural no Brasil? Kkkkkkkkkkk
Bem amigas, vou deixar vocês descansarem um pouco. Na verdade, tudo isso é para estar um pouco mais perto de vocês e poder compartilhar o meu dia-a-dia que não tem sido muito fácil. Afinal, muita distância, água e saudade me separam das pessoas que eu gosto.
O Fred (um professor da UFV) me contou que chegou com 15 anos a Viçosa para estudar num Colégio famoso da cidade – o Colégio Viçosa – e que no primeiro ano ele voltou nove vezes para casa, no interior da Bahia. Mesmo que chegasse no sábado e voltasse no domingo. Parece absurdo, mas entendo o que ele devia estar sentindo. Minha sorte é que eu consigo voltar para casa – pelo menos virtualmente – somente acessando a internet. Não é a mesma coisa, lógico, mas ajuda bastante.
Estes e-mails foram, portanto, para enviar um pouco de cada pedaço que vivi aqui. E com zero calorias...
!Qué disfruten!
Muitos abraços,

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