Gente, agora é o último, eu
prometo. Pelo menos até a minha próxima necessidade de fugir do pós-doc...
Este tema foi motivado por uma
conversa com Sheilla que me disse que, quando ela veio a Barcelona (por 1 mês,
eu acho), achou muito fácil falar e compreender as pessoas e que, quando voltou
ao Brasil, ainda deu um curso na PUC de cultura espanhola. Isso mexeu com meu
orgulho. Até agora eu não entendo bem o que falam comigo, invento conjugações
de verbos e pago todos os micos que um estrangeiro tem (ou não) direito. Fiquei
roxa de inveja e só por isso vou escrever um e-mail sobre costumes espanhóis.
Viu Sheilloca, agora estamos quites...
Vou começar pelas comidas. De
fato, eu não estou ainda muito bem adaptada aos costumes daqui. As pessoas
tomam dois cafés da manhã, um ao acordar e um por volta de 11 horas da manhã e é
comum sair para tomar o café na rua. Bem, pelo menos tem um negócio que eu
gostei muito que é o típico café da manhã da Andaluzia (o estado em que está
Sevilha). É um pão (o pão aqui é bem duro), torrado ou não, em que se coloca
azeite. Também se pode acrescentar açúcar (ainda não provei azeite com açúcar,
deve ser estranho) ou sal, tomate (fatiado ou triturado) e jamón ibérico. Este
último é meio nojento, mas é gostoso. São pernis curtidos no sal por mais ou
menos dois anos. Depois se lava, se pendura e vai se tirando fatias. Nos
restaurantes, eles ficam expostos. Vou mostrar as fotos.
O almoço é servido entre 2 e 4 da
tarde e tem muitas lojas, supermercados, farmácias que fecham entre 14 e 17
horas (para a siesta). Acho que o povo toma café na rua, mas, em geral, almoça
em casa. Depois as lojas abrem até mais ou menos as 21 ou 22 horas. Parece que
as pessoas jantam nesta hora, mas isso não sei bem. Eu já tô indo dormir neste
horário.
Não acho a comida daqui gostosa. Tem
pratos que tiram da geladeira e te servem. Hoje mesmo meu almoço tinha uma
salada com batata cozida muito fria. Alguns pratos até eu gosto, mas a maioria
não. Nos restaurantes se serve dois pratos salgados e uma sobremesa. Em geral,
pelo menos num dos pratos tem batata, quase sempre, frita. E sempre se serve pão
nas refeições.
Quanto à paella... eu achava que
era sempre feita de frutos do mar e, de fato, a maioria é assim, mas quando fui
ao País Basco me disseram que pode ser feita com frango ou outras carnes
somente. O Antonio Banderas fez uma no programa da Ana Maria Braga que levava
frango, carne e peixe... parecia uma delícia... Mas não achei destas.
Tenho assistido a uns programas
de culinária aqui, tem um engraçadíssimo. É uma chef que ensina uma pessoa – no
estúdio de gravação – a fazer uma refeição. Depois disso, a pessoa volta para
casa e faz um jantar para quem quiser convidar. Tudo parece simples e fácil. As
pessoas observam e não ficam com nenhuma dúvida... até chegar ao supermercado
para comprar os produtos. Aí começam os problemas. Teve um cara que fez uma
verdura que no programa estava crocante ficar toda molenga – acho que ele
fritou em gordura fria. Mas o melhor foi ele tentando fazer clara em neve com
um mixer de triturar. Ele gastou mais de uma dúzia de ovos e achava que os ovos
estavam com algum tipo de defeito. Por fim, terminou a receita sem a clara em
neve. Eu gosto dessas coisas porque me lembram algumas pessoas que conheço.
Um dia a Cida me disse que eu não
ia poder comer na rua – que é muito caro – e eu ia ter que aprender a cozinhar.
Fiquei apavorada. Mas ainda não foi preciso. Eu compro comida semi-pronta (até
arroz tem) e ponho no microondas 3 minutos. Até salada lavada e picada eu
encontro. Que salvação! Mas agora estou começando a ficar preocupada. Estou
fazendo intercâmbio linguístico (não é o que vocês estão pensando...). Vou
explicar: trata-se de encontrar uma pessoa que fala uma língua que você queira
aprender e que queira aprender a sua. Então isto é o intercâmbio linguístico
(pelo menos o que eu tenho feito até agora). E conheci a María del Mar que é
professora de inglês na Universidade de Sevilha e fala espanhol (é nativa),
inglês (morou vários anos nos Estados Unidos), italiano, francês, alemão e
agora português. Como tem gente chique neste mundo, né? Ela fala português de
Portugal, tem um grupo que estuda português, me apresentou a eles, me levou
para almoçar na casa dela e, de vez em quando, a gente sai para comer umas
tapas e conversar. Eu fiquei pensando em fazer uma comida brasileira para ela e
grupo que estuda português. Mas estou com medo de arruinar o intercâmbio e a
amizade. Ainda não sei que produtos brasileiros há aqui. É que eu só vou na área
de congelados e semi-prontos do supermercado. Achei um pó para fazer pão de
queijo e pensei em talvez começar por aí. Vamos ver o que faço. Mamãe, vou
precisar muito da sua ajuda... E como...
As tapas são uma tradição daqui.
Antigamente, parece que eram gratuitas. Eram aperitivos que se colocavam nos
bares para os fregueses, mas agora são pagas. Eu não gosto muito. Acho sem
graça. A melhor que comi me custou um mico danado. Estava eu com a Fatinha
(professora da Economia Doméstica), o irmão dela e a esposa num bar e o garçom
sugeriu uma carne muito boa. Eu não entendi muito bem, mas tinha música,
massagem, fiquei animada. Pedimos a tapa. A carne era realmente ótima, mas a melhor
parte, que era a massagem, não chegava nunca. Aí resolvi perguntar quando viria...
Gente, a música e a massagem eram para o boi, não para mim. Isso que dá entender
castelhano pelas metades.
Os doces aqui são maravilhosos.
Estou fugindo deles como diabo da cruz, mas são muita tentação. Vou colocar
umas fotos para vocês.
Quanto ás bebidas... Essa parte
tá bem capenga. Dizem que os vinhos aqui são ótimos, mas ainda não consegui
gostar. E de dia, se bebe vinho misturado a um refrigerante tipo Sprite com
gelo (é que aqui é muito quente). Ainda quero provar suco de tomate que vi as
pessoas tomando com sal, mas ainda não o fiz. E há também o gaspacho que ainda
não tomei porque não chegou o verão.
Não posso falar muito de comida,
porque estou engordando... E aí corre o risco de eu ter que provar muita coisa
para comentar o que achei. Então vou parando por aqui.
Para concluir, vou contar um
pouco como as pessoas se vestem. É mais ou menos como no Brasil, mas em geral
mais caprichado. Com salto, maquiagem, meia-calça, botas, cachecóis... Eu até tento
imitar – comprei 3 pares de botas (é que eu tava precisando, sabe?), umas
meias, uns cachecóis, mas acho que ainda não tô chique. Um dia, acordei
animadíssima para me maquiar, caprichei no visual e fui para uma reunião com
minha orientadora. Sabe qual foi a primeira coisa que ela me falou? Que eu
estava com uma cara de quem tinha dormido muito mal. Nossa. Será que tava ruim
assim?
As crianças são sempre muito bem
vestidas. Ficam lindas. Eu vejo muitos gêmeos e é muito comum que estejam vestidos
iguais. Mesmo irmãos diferentes costumam vestir as mesmas roupas. Outro dia, vi
um casal com dois filhos. A menina se vestia igual à mãe e o menino igual ao
pai. Vocês podem achar isso brega, mas eu achei lindo. Até porque, quando as
pessoas se dão este trabalho todo, não vão por qualquer roupa.
Ah, lembra que eu contei das
mulheres vestidas de preto com véu e peineta na Semana Santa? Pois é, me
contaram que nos casamentos, a mãe da noiva costuma usar véu e peineta. Em
casamentos mais sofisticados, como o da Infanta Elena que se casou na Catedral
de Sevilha, o traje das mulheres incluía peineta e o véu não tenho certeza. Eu
tentei achar fotos do casamento, só consegui uma com o que eu queria. É que agora só se fala no divórcio dela (êta
imprensa que gosta de coisa ruim). Eu achava que a mãe da noiva não ia usar véu
preto (me disseram que era colorido), mas na foto que encontrei, a Rainha Sofia
e mais uma mulher (não sei quem) estão com véu preto. Vou por para vocês verem.
Antigamente, as peinetas eram feitas de casco de tartaruga e ainda é possível
achar, mas são muito caras. São verdadeiras jóias. Eu achei umas fotos num site
sobre mulheres com véus coloridos em festas e vou colocar para vocês verem. Na
Feira de Sevilha acho que as mulheres costumam usar véus com peinetas (depois
conto com certeza) e nas touradas elas põem véu e peineta brancas.
Ah, mais um detalhe. Tenho quase
certeza que a maioria das pessoas aqui não toma banho todo dia. Ainda não fiz
uma investigação mais profunda – e tô com vergonha de perguntar. Mas é o que
parece... Já pensou se eu resolvo adotar este traço cultural no Brasil?
Kkkkkkkkkkk
Bem amigas, vou deixar vocês
descansarem um pouco. Na verdade, tudo isso é para estar um pouco mais perto de
vocês e poder compartilhar o meu dia-a-dia que não tem sido muito fácil.
Afinal, muita distância, água e saudade me separam das pessoas que eu gosto.
O Fred (um professor da UFV) me
contou que chegou com 15 anos a Viçosa para estudar num Colégio famoso da
cidade – o Colégio Viçosa – e que no primeiro ano ele voltou nove vezes para
casa, no interior da Bahia. Mesmo que chegasse no sábado e voltasse no domingo.
Parece absurdo, mas entendo o que ele devia estar sentindo. Minha sorte é que
eu consigo voltar para casa – pelo menos virtualmente – somente acessando a
internet. Não é a mesma coisa, lógico, mas ajuda bastante.
Estes e-mails foram, portanto,
para enviar um pouco de cada pedaço que vivi aqui. E com zero calorias...
!Qué disfruten!
Muitos abraços,
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