segunda-feira, 21 de maio de 2012

Alemanha sem muros





Queridas amigas,
Cá estou eu de novo contando as aventuras e desventuras mundo afora...
Fiquei muito orgulhosa da minha desenvoltura na Alemanha. Consegui pegar ônibus, trem, barco, avião, tudo que era preciso para fazer o que eu planejava. Berlim é uma cidade legal. Achei tudo bem diferente do que imaginei. Achava que todo mundo era enorme (isso não é verdade), bravíssimo (são gente boa!) e loiro (falso também). Aurea queria saber se era tudo muito limpo. Não. Não era. Não chega a ser sujo, mas basta um papelzinho no chão da estação de metrô para eu não poder mais dizer que tá limpo. Disseram que Munique é limpíssimo, mas eu não conheci. Mas as pichações dão à cidade um aspecto de sujeira (certamente há quem goste de pichações, mas é como eu vejo). Berlim tem gente do mundo inteiro: japonês, africanos, indianos, turcos, pessoas do Leste Europeu e pode não ser um exemplo claro do que é tipicamente alemão.
Vou comentar uma coisa – confessando minha mais absoluta ingenuidade – que me surpreendeu muito aqui. Pessoas pedindo esmolas. Juro que eu achava que isso não acontecia nos países ricos. Mas tem. Não muitos, mas eles me chamam a atenção. Eu sempre ouvi dizer que não havia pobreza, miséria, fome, desemprego, que todos tinham suas necessidades básicas satisfeitas. Ou será que eu inventei isso? Sei lá. Não vi crianças (ainda bem!) mas adultos pedindo. Alguns jovens de vinte e poucos anos. Bonitos. Um casal de celular na entrada do metrô. Celular mais moderno que o meu. A Gláucia tentou me explicar muitas vezes que podem ser pessoas com problemas mentais, jovens que abandonam a família, refugiados, estrangeiros que estão em processo de legalização e não tem direito ainda aos benefícios sociais... Eu ouvi, entendi, mas não compreendo. 
Bem, visitei o que restou do muro (gostei mais da parte que todo mundo coloca o chiclete...), o monumento aos judeus, a catedral, uma sinagoga que hoje é museu e não lembro mais o que.  Fala-se muito na guerra que marcou muito a cidade até hoje. Não quis visitar os campos de concentração. Mas passei por uma praça onde foram queimados milhares de livros da biblioteca durante o nazismo. Na praça havia uma exposição de livros com sofás e redes para as pessoas lerem. Lá tem uma placa com uma frase do século XIX atribuída ao poeta alemão Heinrich Heine que diz “Onde se queimam livros, também se queimam pessoas” (Eu acho que é isso. Está escrito em alemão e leram para mim). É uma cidade plana cheia de bicicletas. Tem até um carrinho para colocar bebês na bicicleta, mas levam cachorro, compras, qualquer coisa. Tem muitos ônibus, trem, metrô e achei fácil andar na cidade. O transporte público é excelente. Tudo prático, rápido e simples. Sem falar uma palavra de alemão (ah, aprendi a falar “danke”= “obrigado” e “guten morgen”=“bom dia”), comecei a entender as sinalizações do trem no segundo dia. Fui e voltei pro aeroporto de trem. Não precisei de táxi.
Uma das coisas que tem me surpreendido é o tanto de área verde nas cidades. Como é bonito. Cheio de parques e jardins e heras subindo pelos edifícios... Muito, muito verde.
Ah, fui num Flohmarkt (Mercado das pulgas) que tinha de tudo. Muito legal. Sorte minha que o Brasil é longe, a grana é curta e a mala é pequena. Acho que sempre tem aos domingos.
Mas o melhor de tudo foi uma cidade perto de Berlim chamada Postdam. Era uma cidade de descanso para o rei. Eles contaram que o rei queria que todo mundo tivesse casa bonita. Então construía fachadas lindas que escondiam as casas pobres. É uma cidade com vários palácios e muitos jardins lindos. Visitei o Sanssouci (que significa “sem preocupações”) construído pelo Frederico II da Prússia. É pequeno (acho que tem 3 quartos) e tem um lindo jardim. Não entrei porque era segunda-feira e estava fechado. Fui também a um lugar onde aconteceu a Conferência de Postdam em 1945, quando, ao final da guerra, decidiram dividir a Alemanha ao meio. Visitei também o Palácio Novo, que é fabuloso, indescritível e fantástico. Um dos salões decorado com conchas nunca vou esquecer. Atualmente parte do Palácio é sede da Universidade de Postdam.
No último dia, fui aos museus. Impressionante. Eles tem desde as primeiros resquícios do ser humano na face da Terra, moedas, utensílios, coisas do antigo Egito, da Babilônia (uma porta imensa), da Grécia Antiga (parte do Altar de Pérgamo e do mercado de Mileto) entre outras produções histórias e culturais muito valiosas. É triste pensar o quanto estas obras devem ter sido avariadas com as viagens e as mudanças. Mas eles justificam dizendo que salvaram as obras de arte que estavam sendo destruídas nos lugares de origem. Disseram que os gregos quebravam e arrancavam partes dos monumentos e usavam o material. Cada um com sua história e sua verdade...
 
A próxima parada era a casa da minha amiga Gláucia e do seu marido Volker em Bonn. Uma cidade linda, encantadora em que toda casa é um pouco palácio, inclusive a dos meus amigos que é centenária e linda. Eles moram perto do Jardim Botânico num lugar encantador. As casas não tem muros, nem grades, nem cercas elétricas, nem porteiros... só jardins. Não é o paraíso? 
A cidade tem verde por todos os lados, jardins e heras e as pessoas andam de bicicleta – é tudo plano! Não visitei a casa de Beethoven (que nasceu em Bonn), nem umas exposições chiquérrimas que a Gláucia tinha separado para eu ver.
Fui a Colônia naquela catedral maravilhosa. O Volker me contou que eles começaram a construção da igreja no século XII e duzentos anos depois já não sabiam mais qual era o projeto inicial e ela foi interrompida até ser retomada no século XIX. Impressionante a altura, os vitrais, os mosaicos do chão, tudo lindo.
Perto da Catedral tem ainda alguns resquícios do período romano e um museu com um mosaico romano fabuloso.
No outro dia, fiz um passeio de barco pelo Rio Reno, desci em Kӧnigswinter e fui a uma ruína de um palácio e a um palácio chamado Schloss Drachenburg que era uma casa fantástica e agora é um museu. Só tem casas maravilhosas ao longo do Reno que foi (e é) importante política e economicamente. Como ele é navegável facilitava e facilita o transporte de pessoas e cargas.  
No fim de semana, fui a Unkel, Bad Honnef, Altenahr, Ahrweiler, Remagen (onde tem os resquícios da última ponte – que não foi destruída pelos alemães e por onde os aliados entraram no outro lado da Alemanha) e em Maria Laach See (um mosteiro que tem uma produção orgânica de flores, verduras e legumes vendida pelos monges até hoje) e um lago numa antiga cratera vulcânica. Estas cidades lindas (numa tinha até um festival de música delicioso e em outra uma feira de tecidos) me foram apresentadas por Gláucia e Volker no fim de semana. 
Ainda falta contar uma coisa interessante. Na noite de 30 de maio, os homens (e agora modernamente as mulheres também) para declarar seu amor, colocam uma árvore toda enfeitada na porta da casa onde mora a pessoa pela qual estão apaixonados(as). Para não ter confusão, põem um coração vermelho com o nome da pessoa para a qual estão se declarando. Resta à(ao) agraciada(o) descobrir o(a) autor(a) da declaração e dizer se aceita ou não. E tem é gente apaixonada na cidade. Tinha árvore enfeitada em tudo quanto é canto.
Segundo o Volker, algum tempo depois das declarações recebidas e aceitas, vem outra tradição: enfeitar a porta da casa anunciando a chegada de um bebê.
Certamente, faltou muito para conhecer da Alemanha, que é muito maior do que pude perceber. Esta viagem foi terapêutica para mim: me descobri mais ousada, corajosa e capaz do que imaginava. Fiquei também impressionada com o quanto de beleza o ser humano é capaz de produzir. Ao mesmo tempo, só pude contemplar o que sobrou de inúmeros conflitos e  guerras que destruíram boa parte deste patrimônio – sem falar nas vidas que se perderam. O que seria do mundo se não tivessem os muros? Se as pessoas colocassem nas ruas a celebração da vida e do amor? Vou parar por aqui. A ousadia anda chegando a ponto de pensar que o mundo pode ser diferente do que é.
Beijos a todas,
Ritinha.

Feria de Abril



Queridíssimas amigas,
Saudades de todas!!!!!!!!!!
Vou lhes contar de uma das principais festas de Sevilha que terminou antes de ontem, a Feria de Abril...
A primeira feira aconteceu em 18 de abril de 1847 (tô lendo num livrinho ...). Uma pessoa me falou que e li num blog que, no início, a feira era uma exposição de gado e que os cuidadores de gado ficavam festejando a noite toda e as pessoas começaram a se reunir porque era muito animado.
Atualmente a Feira começa numa segunda feira de lua cheia depois da Semana Santa. Por isso, a data muda conforme o ano e já teve feira de abril até em maio. Mas antes já tem quem vá. No domingo, por exemplo, pode ser que as pessoas se reúnam para decorar as casetas e preparar o espírito para a festa. As casetas são propriedades de pessoas (famílias, empresas, as fraternidades da Semana Santa, partidos políticos, etc) e são montadas e desmontadas todo ano no mesmo lugar.
Vou passar para vocês os números do livrinho:
São 1.048 casetas: 22 familiares, 496 de várias famílias, 310 entidades, 201 Peñas (eu não sei o que é isso. Fiquei pensando que podem ser das fraternidades da Semana Santa), 2 municipais, 6 distritos e 11 serviços. Não se pode entrar nas casetas particulares. A menos que vc tenha algum conhecido que te faça um convite. Mas, como as casetas são pequenas, eles não podem convidar muita gente. Como eu conheço "muita gente" em Sevilha, fui a duas casetas. Eu sou chique demais...
As casetas públicas são abertas a todos, mas aí também não dá para entrar porque é gente que não acaba mais. Impossível. E quem não tem caseta fica rodando pela feira até cansar sem ter nem uma cadeirinha para sentar. Nas casetas, as comidas são vendidas por um grupo contratado pelos donos da caseta. No primeiro dia, segunda-feira, as pessoas vão para comer pescado. Chama-se noite do pescaíto. Todos vão arrumadíssimos, como se fosse para um casamento. Eu não fui, estava no metro e vi as mulheres de longo e os homens todos de terno. Á meia-noite acendem-se as luzes da Portada e das ruas da Feira. Todas as ruas da Feira tem nomes de toureiros famosos. A bebida principal é um vinho branco chamado Manzanilla, típico da região, ou “rebujito” que é este vinho servido com Sprite e gelo. E, ao final da Feira, se come “buñuello”, um biscoito frito que se mergulha numa xícara de chocolate quente. Muito, muito light... e eu amei...comi vários.
A partir da terça-feira, as mulheres começam a vestir os trajes de cigana - que são maravilhosos. Tem de todo tipo. Lindos, lindos, lindos. Aliás, para mim, esse foi o principal encanto da festa. As roupas de cigana. Eu queria várias. Não conseguiria escolher. Até arrumei uma emprestada. Pelo que vi tava meio fora de moda, mas sabe porque não a vesti? Porque tinha que passar. Imagina um vestido pesado, cheio de babados, de renda, de anáguas todo amassado. Vesti e vi que não dava para usar sem passar. E aí, voltei com ele para a sacola. Sem chance de eu ficar 1 hora passando aquilo. Pus só um xale e uma flor e fui pra festa.
Uma coisa interessante é que, no fim de semana em que a feira acaba já não há mais sevillanos, mas pessoas de fora, turistas e gente de cidades próximas. Alguns me disseram que os sevillanos vão embora porque já estão cansados da Feira. Não sei. Acho que aqui as pessoas são muito elitistas, para mim vão embora para não se misturar com quem não é da cidade e não se veste tão bem para a festa. Realmente no domingo vi menos pessoas vestidas com trajes de ciganas e muito mais turistas. Ah, na semana da Feira não tem aula nas escolas, tudo funciona só mais ou menos até umas 2 da tarde e depois todos vão para a festa. É um feriadão de uma semana.
Outra coisa que me encantou: os passeios de cavalos. A Feira reúne mais de um milhão de pessoas. Tem ônibus para chegar lá, metrô e o transito da cidade muda para a festa. Eu tentei ir de metrô um dia e voltei para casa. Impossível. Não tinha como entrar. De carro também não se chega porque o trânsito de carros é impedido e não há estacionamento. Mas o chique mesmo é ir de carruagem. O dia inteiro passa carruagem aberta e fechada pela cidade levando gente. Algumas são alugadas. Me disseram que custam entre 80 a 200 euros a hora. Mas as mais chiques são de pessoas. São lindas. Os cocheiros vão sempre de chapéu e luva. Com uma roupa chiquérrima. Os cavalos são lindíssimos. Na Feira tem até engarrafamento de tanta carruagem e cavalo. As ruas são de mão única e mesmo assim dá uma confusão danada. Também tem os cavaleiros e amazonas. É muito comum que as mulheres vistam uma saia justa e se sentem de lado nos cavalos. Ou vão com roupa de cigana de lado também. É como uma viagem no tempo. De novo é comum ver mães e filhas com a mesma roupa de cigana e os meninos com uma roupinha de toureiro (são poucos os que vestem assim) e a roupinha é bem simples. Sem os bordados dos toureiros. Também vejo meninos vestindo calças curtas. Vou mandar as fotos para vcs verem.
Para terminar: a música principal da festa são as sevillanas e se baila todo o tempo. Também se ouve rumba, flamenco, mas o tradicional são as sevillanas. E todo mundo dança. A maioria sabe, mas que não sabe muito bem (como eu) também se atreve. É uma dança com passos marcados, não pode ir lá e fazer qualquer coisa. Tem ordem e sequência. Cada música tem  quatro tempos e cada um tem seus passos específicos. Fiquei muito feliz de dançar sevillanas, embora ainda não consegui decorar todos os passos. Foi como um alemão dançando samba. Mas foi bem legal.
Para as crianças, adolescentes e jovens como eu tem a Rua do Inferno que é um parque imenso com muitos brinquedos, lotados, com muita música e gritaria. Fui na montanha russa e num brinquedo chamado canguru (para nunca mais na vida – para eu ver que já passei muito da idade destas coisas...) e ainda tem um circo e aqueles brinquedos de tiro ao alvo, bingos, sorteios, etc, etc.
A feira terminou com muitos fogos de artifício à meia-noite de domingo.
Segundo me informaram, a Semana Santa e Feria de Abril são as principais festas de Sevilha. De tal forma que eu já tô com vontade de ir embora. Que eu vou fazer nesta cidade sem festa gente? Vou ter que inventar umas coisas interessantes e talvez eu vá ter até que estudar para este pós-doutorado (o que muito me assusta!!!) Brincadeira. Morram de inveja. Estou indo para Berlim, Bonn, Amsterdã, Bruxelas e Paris. De modos que eu vou ter muita coisa para contar. Especialmente de como vou me virar sozinha sem falar uma palavra de alemão, holandês, flamengo ou francês... E com um inglês do tipo “The book is on the table”. Bem, “C’est la vie...”. Uma coisa eu descobri na montanha russa. Uma vez que a partida foi dada, não tem mais como pular fora. Tem que esperar até o final. Então vamos... Boa viagem para todos nós.
Abraços a todas,

Cultura sevilhana


Gente, agora é o último, eu prometo. Pelo menos até a minha próxima necessidade de fugir do pós-doc...
Este tema foi motivado por uma conversa com Sheilla que me disse que, quando ela veio a Barcelona (por 1 mês, eu acho), achou muito fácil falar e compreender as pessoas e que, quando voltou ao Brasil, ainda deu um curso na PUC de cultura espanhola. Isso mexeu com meu orgulho. Até agora eu não entendo bem o que falam comigo, invento conjugações de verbos e pago todos os micos que um estrangeiro tem (ou não) direito. Fiquei roxa de inveja e só por isso vou escrever um e-mail sobre costumes espanhóis. Viu Sheilloca, agora estamos quites...
Vou começar pelas comidas. De fato, eu não estou ainda muito bem adaptada aos costumes daqui. As pessoas tomam dois cafés da manhã, um ao acordar e um por volta de 11 horas da manhã e é comum sair para tomar o café na rua. Bem, pelo menos tem um negócio que eu gostei muito que é o típico café da manhã da Andaluzia (o estado em que está Sevilha). É um pão (o pão aqui é bem duro), torrado ou não, em que se coloca azeite. Também se pode acrescentar açúcar (ainda não provei azeite com açúcar, deve ser estranho) ou sal, tomate (fatiado ou triturado) e jamón ibérico. Este último é meio nojento, mas é gostoso. São pernis curtidos no sal por mais ou menos dois anos. Depois se lava, se pendura e vai se tirando fatias. Nos restaurantes, eles ficam expostos. Vou mostrar as fotos.
O almoço é servido entre 2 e 4 da tarde e tem muitas lojas, supermercados, farmácias que fecham entre 14 e 17 horas (para a siesta). Acho que o povo toma café na rua, mas, em geral, almoça em casa. Depois as lojas abrem até mais ou menos as 21 ou 22 horas. Parece que as pessoas jantam nesta hora, mas isso não sei bem. Eu já tô indo dormir neste horário.

Não acho a comida daqui gostosa. Tem pratos que tiram da geladeira e te servem. Hoje mesmo meu almoço tinha uma salada com batata cozida muito fria. Alguns pratos até eu gosto, mas a maioria não. Nos restaurantes se serve dois pratos salgados e uma sobremesa. Em geral, pelo menos num dos pratos tem batata, quase sempre, frita. E sempre se serve pão nas refeições.
Quanto à paella... eu achava que era sempre feita de frutos do mar e, de fato, a maioria é assim, mas quando fui ao País Basco me disseram que pode ser feita com frango ou outras carnes somente. O Antonio Banderas fez uma no programa da Ana Maria Braga que levava frango, carne e peixe... parecia uma delícia... Mas não achei destas.
Tenho assistido a uns programas de culinária aqui, tem um engraçadíssimo. É uma chef que ensina uma pessoa – no estúdio de gravação – a fazer uma refeição. Depois disso, a pessoa volta para casa e faz um jantar para quem quiser convidar. Tudo parece simples e fácil. As pessoas observam e não ficam com nenhuma dúvida... até chegar ao supermercado para comprar os produtos. Aí começam os problemas. Teve um cara que fez uma verdura que no programa estava crocante ficar toda molenga – acho que ele fritou em gordura fria. Mas o melhor foi ele tentando fazer clara em neve com um mixer de triturar. Ele gastou mais de uma dúzia de ovos e achava que os ovos estavam com algum tipo de defeito. Por fim, terminou a receita sem a clara em neve. Eu gosto dessas coisas porque me lembram algumas pessoas que conheço.
Um dia a Cida me disse que eu não ia poder comer na rua – que é muito caro – e eu ia ter que aprender a cozinhar. Fiquei apavorada. Mas ainda não foi preciso. Eu compro comida semi-pronta (até arroz tem) e ponho no microondas 3 minutos. Até salada lavada e picada eu encontro. Que salvação! Mas agora estou começando a ficar preocupada. Estou fazendo intercâmbio linguístico (não é o que vocês estão pensando...). Vou explicar: trata-se de encontrar uma pessoa que fala uma língua que você queira aprender e que queira aprender a sua. Então isto é o intercâmbio linguístico (pelo menos o que eu tenho feito até agora). E conheci a María del Mar que é professora de inglês na Universidade de Sevilha e fala espanhol (é nativa), inglês (morou vários anos nos Estados Unidos), italiano, francês, alemão e agora português. Como tem gente chique neste mundo, né? Ela fala português de Portugal, tem um grupo que estuda português, me apresentou a eles, me levou para almoçar na casa dela e, de vez em quando, a gente sai para comer umas tapas e conversar. Eu fiquei pensando em fazer uma comida brasileira para ela e grupo que estuda português. Mas estou com medo de arruinar o intercâmbio e a amizade. Ainda não sei que produtos brasileiros há aqui. É que eu só vou na área de congelados e semi-prontos do supermercado. Achei um pó para fazer pão de queijo e pensei em talvez começar por aí. Vamos ver o que faço. Mamãe, vou precisar muito da sua ajuda... E como...
As tapas são uma tradição daqui. Antigamente, parece que eram gratuitas. Eram aperitivos que se colocavam nos bares para os fregueses, mas agora são pagas. Eu não gosto muito. Acho sem graça. A melhor que comi me custou um mico danado. Estava eu com a Fatinha (professora da Economia Doméstica), o irmão dela e a esposa num bar e o garçom sugeriu uma carne muito boa. Eu não entendi muito bem, mas tinha música, massagem, fiquei animada. Pedimos a tapa. A carne era realmente ótima, mas a melhor parte, que era a massagem, não chegava nunca. Aí resolvi perguntar quando viria... Gente, a música e a massagem eram para o boi, não para mim. Isso que dá entender castelhano pelas metades.
Os doces aqui são maravilhosos. Estou fugindo deles como diabo da cruz, mas são muita tentação. Vou colocar umas fotos para vocês.
Quanto ás bebidas... Essa parte tá bem capenga. Dizem que os vinhos aqui são ótimos, mas ainda não consegui gostar. E de dia, se bebe vinho misturado a um refrigerante tipo Sprite com gelo (é que aqui é muito quente). Ainda quero provar suco de tomate que vi as pessoas tomando com sal, mas ainda não o fiz. E há também o gaspacho que ainda não tomei porque não chegou o verão.
Não posso falar muito de comida, porque estou engordando... E aí corre o risco de eu ter que provar muita coisa para comentar o que achei. Então vou parando por aqui.
Para concluir, vou contar um pouco como as pessoas se vestem. É mais ou menos como no Brasil, mas em geral mais caprichado. Com salto, maquiagem, meia-calça, botas, cachecóis... Eu até tento imitar – comprei 3 pares de botas (é que eu tava precisando, sabe?), umas meias, uns cachecóis, mas acho que ainda não tô chique. Um dia, acordei animadíssima para me maquiar, caprichei no visual e fui para uma reunião com minha orientadora. Sabe qual foi a primeira coisa que ela me falou? Que eu estava com uma cara de quem tinha dormido muito mal. Nossa. Será que tava ruim assim?
As crianças são sempre muito bem vestidas. Ficam lindas. Eu vejo muitos gêmeos e é muito comum que estejam vestidos iguais. Mesmo irmãos diferentes costumam vestir as mesmas roupas. Outro dia, vi um casal com dois filhos. A menina se vestia igual à mãe e o menino igual ao pai. Vocês podem achar isso brega, mas eu achei lindo. Até porque, quando as pessoas se dão este trabalho todo, não vão por qualquer roupa.
Ah, lembra que eu contei das mulheres vestidas de preto com véu e peineta na Semana Santa? Pois é, me contaram que nos casamentos, a mãe da noiva costuma usar véu e peineta. Em casamentos mais sofisticados, como o da Infanta Elena que se casou na Catedral de Sevilha, o traje das mulheres incluía peineta e o véu não tenho certeza. Eu tentei achar fotos do casamento, só consegui uma com o que eu queria.  É que agora só se fala no divórcio dela (êta imprensa que gosta de coisa ruim). Eu achava que a mãe da noiva não ia usar véu preto (me disseram que era colorido), mas na foto que encontrei, a Rainha Sofia e mais uma mulher (não sei quem) estão com véu preto. Vou por para vocês verem. Antigamente, as peinetas eram feitas de casco de tartaruga e ainda é possível achar, mas são muito caras. São verdadeiras jóias. Eu achei umas fotos num site sobre mulheres com véus coloridos em festas e vou colocar para vocês verem. Na Feira de Sevilha acho que as mulheres costumam usar véus com peinetas (depois conto com certeza) e nas touradas elas põem véu e peineta brancas.
Ah, mais um detalhe. Tenho quase certeza que a maioria das pessoas aqui não toma banho todo dia. Ainda não fiz uma investigação mais profunda – e tô com vergonha de perguntar. Mas é o que parece... Já pensou se eu resolvo adotar este traço cultural no Brasil? Kkkkkkkkkkk
Bem amigas, vou deixar vocês descansarem um pouco. Na verdade, tudo isso é para estar um pouco mais perto de vocês e poder compartilhar o meu dia-a-dia que não tem sido muito fácil. Afinal, muita distância, água e saudade me separam das pessoas que eu gosto.
O Fred (um professor da UFV) me contou que chegou com 15 anos a Viçosa para estudar num Colégio famoso da cidade – o Colégio Viçosa – e que no primeiro ano ele voltou nove vezes para casa, no interior da Bahia. Mesmo que chegasse no sábado e voltasse no domingo. Parece absurdo, mas entendo o que ele devia estar sentindo. Minha sorte é que eu consigo voltar para casa – pelo menos virtualmente – somente acessando a internet. Não é a mesma coisa, lógico, mas ajuda bastante.
Estes e-mails foram, portanto, para enviar um pouco de cada pedaço que vivi aqui. E com zero calorias...
!Qué disfruten!
Muitos abraços,

Semana Santa em Sevilha


Queridas,
eu de novo... não falei que tinha muito para escrever?
Eu estava muito curiosa para conhecer a Semana Santa de Sevilha. Muita gente viajou (os meninos de Ouro Preto foram para Marrocos e pro deserto do Saara), mas eu resolvi ficar para conhecer como é a festa. Todos os sites que tratam de Sevilha falam da Semana Santa que é uma das maiores festas da cidade.
Confesso que achei um pouco estranha e cansativa. A festa consiste em 61 procissões (eu contei no folheto) de domingo de ramos até sábado. São umas 7 por dia e algumas já saem de madrugada. Na sexta, a primeira sai à meia-noite. Cada uma sai de uma Igreja específica - que fica com as portas fechadas, com todo mundo do lado de fora na maior expectativa - até que a procissão vai pela cidade, chega na Catedral e volta para a Igreja de origem. Quando a procissão está próximo à Catedral, o povo não pode mais ver, porque só a procissão propriamente dita é que pode passar. Famílias tradicionais da cidade têm cadeiras nas ruas próximas à Catedral onde podem ver confortavelmente a passagem da procissão. Por mais que tenham turistas na cidade, não há lugar para eles neste espaço.
Para participar da procissão, é preciso fazer parte de uma irmandade e, para isso, tem que ser recomendado por um membro mais antigo, se portar bem, e ser considerada uma pessoa religiosa. As irmandades antigamente formavam-se por corporações de ofícios: padeiros, açougueiros, etc. Em geral, todos na procissão vestem roupas bem específicas. A maioria são nazarenos. Eles se vestem com túnicas e um negócio pontudo na cabeça – que parece com a Ku Klux Klan. Vão pelas ruas com grandes velas. Tem também os penitentes que vão com uma cruz na procissão. Todos estes tem o rosto coberto – e a explicação que me deram é que não se deve ficar apregoando que estão fazendo penitência. Tem também algumas crianças que distribuem santinhos ou doces para outras crianças. Ah, vi algumas vestidas de nazareno também. E tem uma banda que toca músicas bem tristes, além das saetas que são cantos chorosos que alguma pessoa tira de uma sacada (sem microfone).
Mas o mais importante são os andores são riquíssimos, belíssimos, enfeitadíssimos, feitos de prata ou madeira muito trabalhada, cheios de flores lindas e velas. Algumas procissões têm mais de um e eles são levados pelos costaleros que vão debaixo do andor sem enxergar nada, cada um carregando cerca de 80 quilos. Como eles não veem nada, fazem um longo treinamento tanto para suportar o trabalho (tem procissão que dura 12-14 horas dependendo de onde saem) quanto para atuarem em conjunto. Eles não andam somente, fazem passos específicos dependendo se o andor é de Nossa Senhora ou de Jesus, e tem que aprender a ir, voltar, abaixar, levantar e fazer algumas curvas muito estreitas sem enxergarem nada. Para isso, tem um capataz que grita as ordens e eles obedecem. Antes da Semana Santa, eles andam pela cidade como se estivessem dentro de uma caixa treinando. Eu tinha visto uma grande caixa cheia de gente dentro (eu via os pés) andando pela rua, achei que tinha a ver com o Carnaval (estava na véspera), e agora descobri que eram os ensaios para a Semana Santa. Fui a uma exposição de pálios (que cobrem os andores e são maravilhosamente bordados) e tirei umas fotos e vou mostrar para vocês. Falando em fotos, vou fazer uma pequena digressão. Minha amiga Adriana me disse que estava fazendo um curso de fotografias. Pois eu tive a capacidade de dizer a ela que ela estava jogando tempo e dinheiro fora porque devia fazer um curso do Photoshop, já que a gente pode tirar uma foto qualquer e melhorar no Photoshop. (Que a Marcy nunca leia o que eu escrevi agora) Santa Ignorância. Agora me dou conta disso. Eu tiro muitas fotos de tudo para mostrar para vocês, mas fico muito decepcionada. Elas não retratam o que eu estou vendo. Ficam tão sem graça... E tem cada detalhe lindo que na foto fica imperceptível. (Dri, perdoe-me!). Como as fotos não mostram o que eu vejo e eu não sei usar o tal do Photoshop, decidi que vou pegar umas fotos na internet para mandar para vocês terem ideia do que eu falo.
Outros detalhes interessantes:
Vem gente do mundo inteiro ver a Semana Santa e os hotéis ficam cheios de turistas. Outras cidades de Espanha também fazem esta festa, mas não com a riqueza e a tradição daqui. Isso significa que é muita, muita gente na rua. Sem contar que as procissões são enormes. São muitos participantes também. Hoje uma pessoa me contou que, para ver a chegada de uma procissão, chegou com duas horas de antecedência. Isso depende também de qual procissão é, porque algumas são mais concorridas que outras.
É tudo muito bonito e bem cuidado. Se fosse no Brasil (pelo menos no Brasil que eu conheço) ia ter um Nazareno de roupa amarrotada, outro com a túnica “pegando frango”, outro de cor diferente. Mas aqui não é assim. É tudo exatamente igual, da mesma cor, mesmo tamanho, mesmo bordado – se há muita diferença eu não consegui ver. Tudo impecável. As crianças vestem cada roupa linda. Segundo a María del Mar (depois eu falo dela),a festa tem características de barroco. Eu não sei bem o que é isso, barroco para mim é igual Ouro Preto e rococó. Ouro Preto não tem nada a ver, mas rococó é o que não falta... Para ser sincera, lembra um pouco o carnaval do Rio de Janeiro. As pessoas se prepararam o ano todo para a festa, as roupas são trabalhadas com esmero e os andores parecem um pouco os carros alegóricos de tão enfeitados.
Não há uma ordem nas procissões (às vezes passa Jesus crucificado e logo depois, um andor no qual ele estava sendo condenado) e estranhei o fato de que tem muito mais Nossas Senhoras que Jesus. Nossa Senhora vai sempre maravilhosamente vestida, com bordados, jóias, rendas, mesmo que esteja triste pela morte do filho. O curioso é que ela sempre está vestida como uma rainha, já Jesus vai com as roupas simples que a gente conhece mesmo. Vai ver que é até por isso que tem mais Nossa Senhora. Jesus não estaria com trajes muito adequados para uma festa tão chique. Uma pessoa me contou que irmandades mais ricas tendem a se vestir mais pobremente e com uma faixa na túnica (que eu não vi aqui, mas vi na internet que o Antônio Banderas vestiu em Málaga – ele sempre participa das procissões de lá, faz sermão e tudo). As mais ricas também são mais silenciosas. Tem até uma que é do Silêncio na sexta-feira. É muito legal, a multidão na rua toda em silêncio – só se ouve alguns sussurros. Já as mais pobres são as que têm os adornos mais ricos e fazem mais música e barulho. Pois se já se é pobre, pra que ser triste também, né?
As procissões tem hora para sair porque as ruas de acesso à catedral são estreitas e passa uma de cada vez e lembrem-se que elas são enormes, então é mais ou menos cronometrado. Sai uma, entra outra. Só que na Semana Santa costuma chover e, neste caso, não se pode sair com o andor que pode estragar com a chuva. Se chover, meia hora que seja, a procissão já perdeu o horário. Se a procissão tá na rua é o caos, porque eles tem que procurar abrigo imediatamente para o andor. Então, a previsão do tempo é algo muito importante e dada com frequência na TV. Se a procissão não sai, perdeu a vez e agora só vai sair no ano que vem e é uma grande decepção com bastante choro dos participantes.
Na quinta-feira santa, algumas mulheres vestem luto – de fato eu achei um pouco sexy demais para umas viúvas – e põem um vestido justo preto, uma meia calça (estava frio) e um véu (que se chama mantilha) enorme (e lindo) na cabeça preso por um peineta. As que eu vi tinha sempre um terço (também lindo) na mão. A tradição manda que elas visitem sete sacrários, mas nem todas fazem isso. E não devem estar desacompanhadas. Tem que estar com um homem. Um homem pode levar duas mulheres. Aqui também tá faltando homem, acreditem! E eles vão sempre de ternos e muito bem vestidos. Mas acho que, se for mais de uma mulher podem ir também. Vi alguns grupos com 2 ou 3. São muitas mulheres que fazem isso, jovens e senhoras. Eu queria tirar fotos, mas fiquei com vergonha, tirei de uma pelas costas, vou tentar encontrar na internet para vocês verem. É bem interessante. Não é uma promessa. É uma tradição e as famílias têm estas mantilhas como verdadeiras joias porque são muito caras.
Ah, e as crianças aqui brincam de Semana Santa. Um dia chequei no conjunto de prédios onde eu moro e vi umas cinco crianças com vela e um pequeno andor. Achei muito engraçado. Aí descobri que eles estavam brincando... mais ou menos... porque eles estavam pedindo dinheiro... não sei exatamente para que, mas resolvi por 1 euro na sacolinha deles. Lembrei de quando eu era criança e coroava minhas bonecas. Pedi a eles par tirar uma foto. Vou por para vocês verem.
Aqui não tem aquela loucura por ovos de Páscoa. Até existem. Devia ter uns dez num supermercado grande lá perto de casa. Vi também uns ovinhos de galinha (com a galinha) feitos de chocolate. Custei a associar com a Páscoa. Vi na TV que, em geral, as crianças comem um bolo coberto por chocolate. O bom é que isso me livrou de umas calorias a mais... Por falar nisso, no próximo e-mail vou falar um pouco da comida e dos costumes daqui.
Enfim, esta foi a Semana Santa. Muito bonita, mas não acho que viria aqui só para ver isso não. Todo dia procissão... E, para dizer a verdade, me pareceu que a festa tenha muito mais um caráter cultural que religioso. Mas foi bom ter visto. Agora tenho mais história para contar. Vocês já imaginaram o quanto eu vou estar chata quando voltar? Então, antes que vocês tenham que ouvir isso tudo de novo, é só me falar: Rita, você já falou tudo por e-mail, não precisa repetir mais... Bem, tão terminando as histórias. Não desanimem. Agora só falta um e-mail.
Beijos.

Quase em casa


Olá,

Cá estou eu de novo para contar da viagem a Lisboa em que participei de um pequeno congresso. A viagem já começou emocionante. Imagina que eu comprei a passagem por e-mail e imprimi algo que eu achei que era o bilhete (mas não era) e não fiz o check-in pela internet. Minha ideia era chegar mais cedo e fazer o check-in no aeroporto. Eu sabia que ia de Sevilha a Lisboa, ia esperar muito tempo e depois pegar um voo par Lisboa. Quando eu cheguei ao aeroporto de Sevilha, descubro que minha passagem era de trem. Nem havia avião no horário marcado. Peguei um táxi e o moço tentava dirigir e me ajudar com o papel que eu tinha, mas nem ele nem eu conseguíamos ter certeza que era para ir de trem. Era tudo confuso, falava em vôo, companhia aérea, mas a saída era na estação de trem. Eu liguei para um número que estava no papel, mas ninguém atendia.
Chegando à estação de trem, eu não consegui imprimir o bilhete de trem porque faltava um número que devia estar no meio e-mail. Só que lá não tinha nem lan-house, nem internet sem fio e vários atendentes disseram que não podiam me ajudar. Aí uma atendente resolveu me ajudar. Me deixou usar o computador e meu e-mail não abria. Leu o papel e também não conseguia entender se era trem ou avião. Aí mudamos de computador, o e-mail abriu e nem eu nem ela não entendíamos porque o que tinha no papel era o que estava no meu e-mail e não tinha os dados que eu precisava. Consegui outro número e liguei para a e-dreams (a companhia que me vendou a passagem). Depois de passar por uns 4 funcionários e ouvir uns 20 minutos de música clássica (que, como vocês sabem, deixam a gente super relaxada num momento como esse), um brasileiro me atendeu e me deu uma “grande ajuda”. Disse que a empresa dele só vendia a passagem e não podia fazer mais nada. Eu tinha que procurar a companhia aérea e falar com eles. E que, se eu perdesse a passagem, o problema era meu e eu não teria o dinheiro de volta porque eu não conseguia (aliás nem eu nem ninguém) entender o que estava no e-mail que me mandaram. Obvio que ainda gastei alguns créditos do celular soltando os cachorros nesse infeliz. Mas ele me deu uma luz. Entrei no site da companhia aérea e lá tinha o check-in para trens. Beleza. O bilhete surgiu do nada. Só que faltavam 2 minutos para o trem sair – e o trem fecha as portas exatamente 2 minutos antes da saída e eles são muito pontuais. Me disseram que se o trem atrasa, você pode pedir seu dinheiro de volta (mas eu não sei se isso é verdade). A atendente imprimiu o bilhete, ligou para o trem pediu para esperar. Desceu correndo como louca comigo, foi abrindo todas as portas, ainda tive que passar minhas coisas naquela esteira de raio-x, o trem abriu a porta, eu entrei e sentei na primeira poltrona (não era meu vagão, nem minha poltrona... era um vagão cheio de velhinhos passeando numa excursão que foram muito gentis comigo porque viram  eu estava destruída). Só levantei da poltrona em Madri.... Ufa. Em Lisboa comprei um presentinho para a menina da estação de trem. Só sabia que ela tinha o cabelo loiro e cacheado e deixei para ela quando eu voltei de Portugal. A passagem que tinha comprado tinha sido caríssima e ela me salvou a viagem.
Daí até Lisboa tudo ocorreu com normalidade como é o esperado. Gente, como é bom estar num lugar em que falam a nossa língua. No primeiro dia eu achei que eles não falavam bem português, mas uma mistura de português com alemão ou algo assim. Teve um velhinho que falou no Congresso e eu entendi umas 2 ou 3 palavras... Também me falaram para pegar o autocarro (que é ônibus) ou o comboio (que é trem) numa estação que eu entendi e anotei como Cashedré... Era o que todo mundo dizia. Só que este nome não havia no mapa. Até rasguei o mapa de tanto procurar. Depois de muito investigar, descobri que a estação chama-se Cais do Sodré... Mas no segundo dia, já me sentia em casa. Encontrava muitos brasileiros por todos os lados e ouvia muita música brasileira. Até demais, pra dizer a verdade... Resolvi ficar num Hostel no Bairro Alto e li uma crítica dizendo que lá era muito barulhento. Mas, como em geral, eu tenho sono pesadíssimo, não me importei. Pois bem, mas a crítica era muito real. Tinha um bar ao lado com música ao vivo cantada por um brasileiro que eu curti bastante até mais ou menos 1 hora da manhã. A partir daí, queria dormir mas a lei do silêncio é completamente desconhecida por aquelas bandas. De manhã, era acordada pelos lixeiros e pelos bombeiros (que lavam as ruas de manhã) porque estavam muito sujas, com copos, garrafas, parecia que tinha passado o carnaval da Bahia por ali.
Eu achei a cidade um pouco suja, com muitas pichações, com aqueles prédios maravilhosos caindo aos pedaços. A cidade me lembrou um pouco Salvador, São Luís e Rio de Janeiro. Além disso, o fato das pessoas colocarem as roupas para secar nas sacadas enfeia muito a cidade. Tirei a foto de uma grande calcinha dependurada na sacada para mandar para vocês. Nem acreditei quando vi aquilo. 
Mas as pessoas são legais. Conheci uma mulher muito simpática (Antônia) no congresso que me levou para passear (para comer Pastel de Belém naquela pastelaria famosa), para ir ao ponto mais ocidental da Europa, para ir a um Cassino e me levou para jantar na sua casa e ainda fez dois tipos de bacalhau, um com nata (que eu acho que é creme de leite) e outro com broa (esse eu tava bem curiosa, mas é uma espécie de uma farinha de milho, não sei bem o que é, mas não era a broa que eu imaginava) e todos estavam uma delícia e a família dela foi super agradável.
Minha amiga Angela disse que era para eu ir a Sintra e lá fui eu, ainda com recomendação de comer uns travesseiros na Periquita (uma loja de lá). Muito bons. Recomendo também. Até então, eu estava um pouco desencantada com os castelos que tinha visitado. Eu queria muito conhecer os castelos, mas eles passavam longe do que eu imaginava. Em geral, eram grandes fortificações, em grandes montanhas, sempre construídos para grandes batalhas. Todo o tempo eu lia das estratégias militares utilizadas. Num deles tinha até uma réplica de uma catapulta (vou ver se mando a foto). Em uma torre, me disseram que jogavam óleo fervendo nos inimigos. Credo!!! Nem posso imaginar uma coisa dessas. Esses não eram os castelos que eu estava imaginando. Eu queria saber daqueles das princesas que ficam aguardando a chegada do príncipe encantado... Mas estes eu não encontrava. O Real Alcazar aqui de Sevilha é lindo demais, mas nem tem móveis. Não consegui entender onde as pessoas dormiam, comiam, como viviam. Mas em Sintra tem um castelo de princesa de verdade. Era uma das casas do rei de Portugal. Lindo, maravilhoso. Com os móveis, a decoração, os objetos de uso pessoal, as louças, tudo maravilhoso. Até ponte levadiça tem o castelo. Tudo bem que deve ter sido construído com as riquezas extraídas do Brasil, mas que a família real tinha bom gosto, isto tinha. E fez bom uso do dinheiro em causa própria. Até que a festa acabou e Portugal se tornou república (embora alguns políticos ainda tentem viver como reis). Amei. Angela, obrigada pela dica.
Bem, vou por umas fotos de Portugal para vocês visualizarem um pouco de tudo isso. A catapulta é de Tarifa, na Espanha, ok?