Queridas amigas,
Fiz questão de conhecer o
Carnaval da Espanha. Procurei saber o lugar do melhor carnaval por aqui.
Disseram que era em Cádiz e lá fui eu. Pra começar, morri de preguiça de sair
para comprar a passagem de ônibus. Resultado: quando cheguei, não havia mais.
Eu tinha combinado de ir com o pessoal de Ouro Preto e, óbvio, eles tinham
comprado a passagem com antecedência. Fui de trem. Cheguei lá 1 hora mais tarde
e comi uma batata assada que não me fez bem. Resolvi dar uma volta pela cidade
e depois encontrar o pessoal. Foi bem interessante. Foi possível ver, ao vivo e a cores, o que é
globalização. Em alguns momentos, me sentia em casa, e em outros, percebia que
ali não era o Brasil. Ao final, concluí que é tudo igual, porém diferente.
As pessoas, quase todas, saem às
ruas fantasiadas. É uma grande festa à fantasia. Tem fantasia de todo jeito. As
óbvias, tipo pirata, bruxa, bombeiro, polícia, cigana, super herói, animais,
etc... Havia muitas fantasias religiosas: padre, freira, bispo, monge etc. As
ousadíssimas: tipo embalagem de camisinha, a própria camisinha ou ainda o “dito
cujo” sem camisinha rsrsrs... Algumas
muito criativas: um dos meninos de Ouro Preto foi de facebook, a menina que
mora no meu apto ia de celular, vi uma estátua da liberdade, alguns de
cirurgião, caixa de remédio, ovo frito, biscoito Maria, chef de cozinha,
vendedor cego de loteria, Bob Esponja... Muitos vão em grupo. Havia vários
smurfs, animadoras de torcida times de baseball, hóquei, alguns criavam um
carro de papelão e iam vários dentro... Alguns, eu não descobri do que estavam
fantasiados e alguns, tenho certeza, não faziam a menor ideia do que era a
própria fantasia... Também havia muita maquiagem e gente que colocava peruca ou
uma máscara só para se divertir. Poucos homens vestidos de mulher, embora
houvesse também. A Amy Winehouse apareceu (não vi o Michel Jackson –
provavelmente chegou mais tarde). Achei bem democrático o carnaval porque tinha
todas as idades, de crianças a idosos. Tem uma tal de chirigota, que parece ser
típica de Cádiz. São pessoas que se reúnem em grupos para apresentar músicas
engraçadas – tipo Mamonas Assassinas. Eu vi um grupo destes que estava fazendo
piadas sobre alimentação. Achei que estivessem vendendo alguma coisa ou pedindo
dinheiro pela apresentação. Depois vi outros e percebi que eles se divertem
fazendo isso. Em geral cantam e dançam. Eu tirei uma foto de uma. Vou mostrar
para vocês.
Senti falta de música. Havia
pouca, mais as pessoas andando do que dançando. De novo, Michel Teló. Vou
tentar enviar um vídeo para vocês do que gravei. No entanto, minhas informações
são bem parciais pq eu vim embora antes do carnaval mesmo começar. Estava
passando mal e desisti de encontrar os meninos de Ouro Preto. De fato, comecei
a contar os minutos para pegar o trem de volta às 8 da noite, quando todo mundo
estava indo para Cádiz. Vou colocar algumas fotos da cidade que é um porto ao
sul da Espanha. A cidade cheia de ruas estreitas e tortas. Lembrava um pouco Ouro
Preto, sem os morros...
Hoje eu ia a um museu de costumes
locais, mas, no meio do caminho, resolvi ver uma manifestação contra a reforma
do trabalho. Segundo a TV, em Sevilha, havia 100 mil pessoas no protesto. Todos
estavam contra a reforma que dizem, leva à perda de direitos adquiridos,
terceirização, privatização ... coisas que conhecemos bem. Estão programando
uma greve geral, mas parece que o governo não está disposto a voltar atrás na
reforma. Dizem que há 5 milhões de desempregados. Ouço na TV que a situação
econômica na Espanha é muito grave. Não consigo ver isso na rua. Acho que deve
levar tempo. Não é de um dia pro outro que as pessoas vão morar na rua. Há
pedintes na rua aqui, especialmente mulheres ciganas. Não vi nenhuma criança.
Mas elas pedem por seus filhos. Também há negros vendendo lenços de papel nos
sinais de trânsito e pedindo ajuda.
Há também denúncia de corrupção
envolvendo o marido da Infanta Cristina, uma das filhas do Rei Juan Carlos I. Na
manifestação, um grupo, que parece minoritário, defendia a República, já que a
Espanha é uma monarquia. Pelo que entendi, as filhas do rei não são princesas,
mas eternamente infantas. Isso porque, na Espanha, as mulheres não chegam a ser
rainhas. Há uma discussão sobre a possibilidade de se mudar a lei para que as
mulheres possam ser rainhas, mas do jeito que está, a sucessão ao trono é bem
complicada porque só é permitida aos homens.
A China também foi um tema falado
hoje na manifestação. O número de lojas de produtos chineses aqui é grande e confesso
que tem salvado meus dias. Graças aos produtos chineses, estou de edredom
quentinho, pijama, casaco, luvas, meias e cachecóis novos... Num dia de frio
desesperador, fui a uma loja dessas e comprei tudo que podia me esquentar. Eu
tô para acreditar que tem produto chinês em mais de 90% dos lares do mundo. Das
tribos de índio aos iglus dos esquimós. Impressionante.
No mais, estou meio sozinha. Não
consigo me comunicar direito. Meu espanhol está muito ruim. Juro que achei que
era mais fácil. Espanhol se parece muito com o português, mas é diferente. Só
para dificultar, várias palavras que, em português são femininas, em espanhol
são masculinas e vice-versa. Hoje, por exemplo, havia um maraton em Sevilha, ou
seja, uma maratona. Além disso, mudam o acento de lugar, polícia é policía,
academia é acadêmia, etc, etc. Os espanhóis falam muito, conversam com
estranhos, são bem animados. Até tentam falar comigo, mas ando meio travada
ainda. Eles falam num tom que parece que estão brigando, mas é só o jeito de falar.
Outra característica interessante é o quanto repetem as coisas. Dizem: claro,
claro, claro, claro, claro! Sim, sim, sim... No, no, no, no e, por aí vai...
Enfim, voltando ao Carnaval,
lógico que esta foi uma visão bem parcial. Achei interessante, mas faltou
música e, especialmente, samba. Samba, pelo jeito, é “coisa nossa”. Claro,
claro, claro, claro...
Abraços com saudades,
Rita.
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