segunda-feira, 21 de maio de 2012

Alemanha sem muros





Queridas amigas,
Cá estou eu de novo contando as aventuras e desventuras mundo afora...
Fiquei muito orgulhosa da minha desenvoltura na Alemanha. Consegui pegar ônibus, trem, barco, avião, tudo que era preciso para fazer o que eu planejava. Berlim é uma cidade legal. Achei tudo bem diferente do que imaginei. Achava que todo mundo era enorme (isso não é verdade), bravíssimo (são gente boa!) e loiro (falso também). Aurea queria saber se era tudo muito limpo. Não. Não era. Não chega a ser sujo, mas basta um papelzinho no chão da estação de metrô para eu não poder mais dizer que tá limpo. Disseram que Munique é limpíssimo, mas eu não conheci. Mas as pichações dão à cidade um aspecto de sujeira (certamente há quem goste de pichações, mas é como eu vejo). Berlim tem gente do mundo inteiro: japonês, africanos, indianos, turcos, pessoas do Leste Europeu e pode não ser um exemplo claro do que é tipicamente alemão.
Vou comentar uma coisa – confessando minha mais absoluta ingenuidade – que me surpreendeu muito aqui. Pessoas pedindo esmolas. Juro que eu achava que isso não acontecia nos países ricos. Mas tem. Não muitos, mas eles me chamam a atenção. Eu sempre ouvi dizer que não havia pobreza, miséria, fome, desemprego, que todos tinham suas necessidades básicas satisfeitas. Ou será que eu inventei isso? Sei lá. Não vi crianças (ainda bem!) mas adultos pedindo. Alguns jovens de vinte e poucos anos. Bonitos. Um casal de celular na entrada do metrô. Celular mais moderno que o meu. A Gláucia tentou me explicar muitas vezes que podem ser pessoas com problemas mentais, jovens que abandonam a família, refugiados, estrangeiros que estão em processo de legalização e não tem direito ainda aos benefícios sociais... Eu ouvi, entendi, mas não compreendo. 
Bem, visitei o que restou do muro (gostei mais da parte que todo mundo coloca o chiclete...), o monumento aos judeus, a catedral, uma sinagoga que hoje é museu e não lembro mais o que.  Fala-se muito na guerra que marcou muito a cidade até hoje. Não quis visitar os campos de concentração. Mas passei por uma praça onde foram queimados milhares de livros da biblioteca durante o nazismo. Na praça havia uma exposição de livros com sofás e redes para as pessoas lerem. Lá tem uma placa com uma frase do século XIX atribuída ao poeta alemão Heinrich Heine que diz “Onde se queimam livros, também se queimam pessoas” (Eu acho que é isso. Está escrito em alemão e leram para mim). É uma cidade plana cheia de bicicletas. Tem até um carrinho para colocar bebês na bicicleta, mas levam cachorro, compras, qualquer coisa. Tem muitos ônibus, trem, metrô e achei fácil andar na cidade. O transporte público é excelente. Tudo prático, rápido e simples. Sem falar uma palavra de alemão (ah, aprendi a falar “danke”= “obrigado” e “guten morgen”=“bom dia”), comecei a entender as sinalizações do trem no segundo dia. Fui e voltei pro aeroporto de trem. Não precisei de táxi.
Uma das coisas que tem me surpreendido é o tanto de área verde nas cidades. Como é bonito. Cheio de parques e jardins e heras subindo pelos edifícios... Muito, muito verde.
Ah, fui num Flohmarkt (Mercado das pulgas) que tinha de tudo. Muito legal. Sorte minha que o Brasil é longe, a grana é curta e a mala é pequena. Acho que sempre tem aos domingos.
Mas o melhor de tudo foi uma cidade perto de Berlim chamada Postdam. Era uma cidade de descanso para o rei. Eles contaram que o rei queria que todo mundo tivesse casa bonita. Então construía fachadas lindas que escondiam as casas pobres. É uma cidade com vários palácios e muitos jardins lindos. Visitei o Sanssouci (que significa “sem preocupações”) construído pelo Frederico II da Prússia. É pequeno (acho que tem 3 quartos) e tem um lindo jardim. Não entrei porque era segunda-feira e estava fechado. Fui também a um lugar onde aconteceu a Conferência de Postdam em 1945, quando, ao final da guerra, decidiram dividir a Alemanha ao meio. Visitei também o Palácio Novo, que é fabuloso, indescritível e fantástico. Um dos salões decorado com conchas nunca vou esquecer. Atualmente parte do Palácio é sede da Universidade de Postdam.
No último dia, fui aos museus. Impressionante. Eles tem desde as primeiros resquícios do ser humano na face da Terra, moedas, utensílios, coisas do antigo Egito, da Babilônia (uma porta imensa), da Grécia Antiga (parte do Altar de Pérgamo e do mercado de Mileto) entre outras produções histórias e culturais muito valiosas. É triste pensar o quanto estas obras devem ter sido avariadas com as viagens e as mudanças. Mas eles justificam dizendo que salvaram as obras de arte que estavam sendo destruídas nos lugares de origem. Disseram que os gregos quebravam e arrancavam partes dos monumentos e usavam o material. Cada um com sua história e sua verdade...
 
A próxima parada era a casa da minha amiga Gláucia e do seu marido Volker em Bonn. Uma cidade linda, encantadora em que toda casa é um pouco palácio, inclusive a dos meus amigos que é centenária e linda. Eles moram perto do Jardim Botânico num lugar encantador. As casas não tem muros, nem grades, nem cercas elétricas, nem porteiros... só jardins. Não é o paraíso? 
A cidade tem verde por todos os lados, jardins e heras e as pessoas andam de bicicleta – é tudo plano! Não visitei a casa de Beethoven (que nasceu em Bonn), nem umas exposições chiquérrimas que a Gláucia tinha separado para eu ver.
Fui a Colônia naquela catedral maravilhosa. O Volker me contou que eles começaram a construção da igreja no século XII e duzentos anos depois já não sabiam mais qual era o projeto inicial e ela foi interrompida até ser retomada no século XIX. Impressionante a altura, os vitrais, os mosaicos do chão, tudo lindo.
Perto da Catedral tem ainda alguns resquícios do período romano e um museu com um mosaico romano fabuloso.
No outro dia, fiz um passeio de barco pelo Rio Reno, desci em Kӧnigswinter e fui a uma ruína de um palácio e a um palácio chamado Schloss Drachenburg que era uma casa fantástica e agora é um museu. Só tem casas maravilhosas ao longo do Reno que foi (e é) importante política e economicamente. Como ele é navegável facilitava e facilita o transporte de pessoas e cargas.  
No fim de semana, fui a Unkel, Bad Honnef, Altenahr, Ahrweiler, Remagen (onde tem os resquícios da última ponte – que não foi destruída pelos alemães e por onde os aliados entraram no outro lado da Alemanha) e em Maria Laach See (um mosteiro que tem uma produção orgânica de flores, verduras e legumes vendida pelos monges até hoje) e um lago numa antiga cratera vulcânica. Estas cidades lindas (numa tinha até um festival de música delicioso e em outra uma feira de tecidos) me foram apresentadas por Gláucia e Volker no fim de semana. 
Ainda falta contar uma coisa interessante. Na noite de 30 de maio, os homens (e agora modernamente as mulheres também) para declarar seu amor, colocam uma árvore toda enfeitada na porta da casa onde mora a pessoa pela qual estão apaixonados(as). Para não ter confusão, põem um coração vermelho com o nome da pessoa para a qual estão se declarando. Resta à(ao) agraciada(o) descobrir o(a) autor(a) da declaração e dizer se aceita ou não. E tem é gente apaixonada na cidade. Tinha árvore enfeitada em tudo quanto é canto.
Segundo o Volker, algum tempo depois das declarações recebidas e aceitas, vem outra tradição: enfeitar a porta da casa anunciando a chegada de um bebê.
Certamente, faltou muito para conhecer da Alemanha, que é muito maior do que pude perceber. Esta viagem foi terapêutica para mim: me descobri mais ousada, corajosa e capaz do que imaginava. Fiquei também impressionada com o quanto de beleza o ser humano é capaz de produzir. Ao mesmo tempo, só pude contemplar o que sobrou de inúmeros conflitos e  guerras que destruíram boa parte deste patrimônio – sem falar nas vidas que se perderam. O que seria do mundo se não tivessem os muros? Se as pessoas colocassem nas ruas a celebração da vida e do amor? Vou parar por aqui. A ousadia anda chegando a ponto de pensar que o mundo pode ser diferente do que é.
Beijos a todas,
Ritinha.

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